A ressureição da origem do som

FabricandoEPs

Um desses dias me perguntaram por que eu me dedicava tanto para pianos elétricos. Para quem não me conhece ainda eu sou um Luthier de EPs, reformo, fabrico e ensino como fazer. Acho que talvez até um pouco mais que isso, um Alquimista talvez, e minha relação com o instrumento é mais na sua essência que a sua tecnologia.

Então me colocaram na parede: Para que voltar ao passado com pianos pesadíssimos e nada portáteis se hoje temos uma infinidade de instrumentos no até no celular e os teclados se tornaram completos e com uma infinidade de opções.

Acho que está aí a questão, ele se tornou algo que pode ser tudo mas perdeu a essência original. Imagine um saxofonista que pode tocar qualquer coisa no sax. Mas onde estará tudo aquilo que ele pode explorar numa simples embocadura?

Outra coisa que pensei também é que os instrumentos de teclas sempre tiveram seu jeito próprio de se tocar. Em virtude de suas limitações foram criadas novas técnicas de se tocar, como o Hammond, o Clavinet, O Cravo, o PipeOrgan, os EPs, Mellotron, os Synths. Há sons e sabores que saem naturalmente destes instrumentos “originais” que ao tocá-los você começa a entender porque surgiram certos composições musicais em dada época.

Por outro lado, vamos pegar a guitarra como exemplo. Ela surgiu como versão elétrica de um violão. Conceitualmente ela sempre interagiu com a sua saída de som – o amplificador – e com as interfaces para corrigir, timbrar e simular diferentes ambientes, mas sem alterar a relação entre o instrumento e o músico nem negar o som original.
A guitarra se manteve praticamente idêntica desde que foi criada. Os aprimoramentos foram estéticos, tecnológicos e interpretativo.
Diferente do piano, ela não precisou se tornar mais portátil do que já era, e nem alteram tanto seu peso.

Humm, será que podemos tentar fazer isso com os instrumentos de teclas? Acho que sim.
O piano de cordas já teve versões de apartamento como o Espineta, praticamente o mais leve de todos e duas pessoas poderiam transportar sem problemas. Claro que tinha uma qualidade limitada, mas a sua proposta mantinha a autenticidade do instrumento.

O Piano Elétrico surgiu como uma tentativa de transformar o piano em algo portátil. No fundo nasceu um novo timbre que substituiu o piano em parte mas possibilitou novas técnicas na forma de como tocar. É muito interessante observar que enquanto não surgiram tecnologias que permitissem sintetizar o real som do piano, ele continuou sendo aprimorado para ficar mais próximo ao piano, a sua sensibilidade, ação de teclas, mas ao mesmo tempo as versões mais antigas ganhavam espaço próprio devido a sua personalidade.
Ele praticamente faleceu quando o teclado eletrônico ganhou mercado, mas junto dele desapareceram seus ruídos, seus defeitos, suas limitações e hoje temos o seu timbre sintetizado ao sabor Coca-Cola.

Esse piano ressurge no mercado dentro de uma doutrina vintage, onde usuários com um pouco mais de espaço, disposição para transportar e nostalgia resgatam a sua personalidade única. Quem toca nele sabe que ele é vivo, que precisa ser acariciado e domado para se ter um bom relacionamento.

Então eis aqui o que venho tentando fazer nos últimos anos, vamos permitir que esse instrumento seja tão amigável como a guitarra tem sido para os guitarristas. Tenho trabalhado na miniaturização das mecânicas, tentando manter características dos materiais mais orgânicos possíveis, simplificando algumas coisas e permitindo a volta dele ao palco chegando debaixo do braço.
Isso tem um preço, surgem ruídos, cliques, desequilíbrios, falhas…. , mas não é isso que queremos? Ouvir a respiração dos sopros, ouvir o “cranck” da guitarra, a marcação dos dedos na caixa do violão, a microfonia?

Isso me faz lembrar da história de quando surgiram as câmeras fotográficas. Os pintores que antes faziam pinturas fotográficas ressurgiram fazendo o que chamamos de arte moderna, e tudo ficou mais subjetivo. O interessante é que ocorreu algo também quando surgiram as câmeras fotográficas digitais. Então as fotos perfeitas deixaram de ser atração, hoje sujamos e deterioramos propositalmente nossas fotos.

E que tal as “mãos na massa”? Começar com um teclado cheio efeitos e calibragem nada disso ficará claro. Por onde começar?
Eu comecei com 7 anos de idade, quando construí meu primeiro teclado. Na verdade aquilo não era um teclado, era uma buzina eletrônica de bicicleta ligada simultaneamente em uns 20 pregos alinhados lado a lado e se tocava encostando a ponta de uma caneta com um fio ligado nela. Coloquei um potenciômetro para cada prego a com eles eu afinava cada nota. Isso não era muito longe do som desses osciladores tipo “monotron”, faltava talvez um pouco de requinte e acabamento.

Depois, com uns 10 anos foi a vez da guitarra, peguei um violanzinho infantil do meu irmãozinho, com cordas de aço que eram vendidos junto daqueles caminhões de madeira em postos de estrada, e o transformei numa guitarra, utilizando como captador uma bobina de solenoide de campainha “din don”. Ao assistir um vídeo do Jack WhiteWhite Stripes – fazendo uma guitarra com garrafa de Coca-Cola me recordei bastante desta época.

O problema é que nesta época eu não conhecia nada de teoria musical, não sabia muito sobre música, composição, improviso. E no fim as coisas que realizei ficaram somente como experiências.

Hoje uma das atividades que mais me motivam na minha oficina é, através de meus projetos redescobrir essas experiências. No momento comecei a trazer essa questão para os nossos workshops, seja na construção de instrumentos ou objetos.

Agora ao construir um teclado, não estou preocupado em imitar certos timbres, mas encontrar outros. Pra mim já não existe bom ou ruim, certo ou errado, existe a descoberta!

Quem quiser saber mais me escreva, para perguntar, comentar, conhecer a oficina e outros projetos.

 

LINKS:

Estudando os mecanismos de geração de som dos EPs:
Percursivo – tipo piano Rhodes, Plucked reed – tipo Hohner Pianet.
https://youtu.be/FfC5bjZfjC0
Monotron

Minha oficina
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Tiago Valente

Tiago Valente

Conhecido como “o alquimista”, além de tecladista, é especialista em conserto, restauração e luthieria de instrumentos de teclas e afins. É responsável pela seção “Oficina” do tecladistas.com.br. Comentários