Iniciação à oficina – desmistificando as coisas

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Para iniciar a pauta deste blog, vamos falar sobre a “desmistificação das coisas”.

O que quero dizer é que para começar a “entender as coisas” precisamos “mexer nas coisas”, perder o medo de abrir, estudar e encontrar soluções ou alternativas, desde uma gambiarra até um conserto completo.

Dedicar-se a “mexer” nas coisas, sejam elas numa bancada, na mesa de jantar ou num cantinho improvisado além de uma ótima terapia, nos ajuda a entender e ampliar nosso conhecimento. É um momento filosófico, onde se treina a observação, a memória, a pesquisa, a organização. O melhor de tudo é que mesmo que você não consiga “consertar” ou fabricar, ao menos entenderá o que está acontecendo e saberá quais decisões tomar.

Esta atitude nos livram de muitos aborrecimentos quando dependemos de outras pessoas para muitas vezes realizarmos coisas muito simples. O interessante é que a mesma bancada que pode utilizar para consertar e dar manutenção aos seus teclados, pianos, estantes, amplificadores, pedais, poderá também utilizar para cuidar de outras coisas do lar, como consertar um eletrodoméstico, colar uma peça quebrada, cortar aquela prateleira. É uma ótima justificativa dizer que a iniciativa servirá também para os utensílios do lar. A família vai gostar.

Em relação aos nossos instrumentos, pretendo gradativamente apresentar de simples dicas até projetos mais complexos que podemos realizar com nossas próprias mãos. Informações de como trocar um componente, resoldar um jack, realizar testes, consertar uma tecla quebrada, fazer reparos estéticos, trocar um revestimento, como até fabricar um instrumento ou construir peças.

Os leitores também são convidados a apresentar tópicos que gostariam que fossem desenvolvidos e discutidos neste espaço. A intenção aqui não é ser técnico, mas ampliar a capacidade de resolver as coisas.

Vamos lá então. Já tens teu espacinho de trabalho? Como está a sua estrutura? Tens as ferramentas que precisa? Aproveite as dicas abaixo e vamos montar nossa bancada.


Ferramenta #1

Primeiramente temos a incrível sorte de ter o GOOGLE como parceiro. Quem aqui tem mais de 30 anos sabe como era penoso encontrar informações. Vivíamos atrás de bibliotecas técnicas, Barsas, boca a boca, telefonemas e com muita sorte e algumas semanas algum xerox ilegível. Hoje ela está ali, no seu celular, no computador, grátis, só precisa digitar. Quase toda informação que precisar pode encontrar ali, só precisa saber como perguntar. É o Oráculo do Matrix.

Algumas vezes não basta a palavra-chave, mas sim a participação em algum fórum e rapidamente encontra alguém para partilhar algo.

Ferramenta #2

Espaço (e disciplina) – cada dia mais raro mas não impossível. Aquele banheiro de empregada, o vazio debaixo da escada, o fundo da garagem, onde couber uma mesa basta. Mas lembre-se que a organização é essencial, e nada melhor que gavetas com organizadores plásticos, prateleiras com “tupperwares” (ótimos para tudo), iluminação muito boa sobre a cabeça e a melhor dica: ferramentas presas num painel à sua frente. Procure separar tudo por tema: fios, lixas, colas, componentes, tecido, parafusos, brocas, tintas, etc.

Não tem mesa? Fácil, use uma porta e dois cavaletes. Deixe uma régua de tomadas na parede bem a frente. Pronto, já podemos trabalhar.

Ferramenta #3

Ferramentas manuais – Não precisa ter todas as ferramentas, mas é importante ter ferramentas básicas e boas. Sugiro começar com um belo kit de ferramentas de bancada, aquelas geralmente com mais de 50 peças, mas não se iluda com um montes de ponteiras de chave, mas sim com mais variações. São elas, chaves de fendas, philips, torx (cada vez mais usada), allen, sextavadas (de boca), inglesa, alicates de bico, de corte, martelo, serra, grosa, tesoura, régua, esquadro, espátula, entre outros. Não economize pois custa muito caro uma ferramenta inapropriada, compre coisa de boa qualidade.

Você pode adquirir suas ferramentas complementares de acordo com o projeto que for executando, por exemplo limas, pontas de broca, lixas, microchaves, alicates especiais, clips e sargentos, estilete, formão, réguas, pincéis, tesoura, canetas, etc. O importante é planejar para não perder a viagem, deixar sempre um caderno com a listagem do que precisará para a próxima empreitada.

Ferramenta #4

Ferramentas elétricas – Aqui a economia não ajuda pois um equipamento mais barato (xingling) pode trazer sérios prejuízos, costumam ser descartáveis. O que ocorre é que a mecânica interna pode ter muitos componentes de plástico e rolamentos frágeis. Vou ajudar um pouco orientando onde é possível economizar. Abaixo segue uma lista de ferramentas que considero essenciais. Se cuidar bem delas vais usá-las pelo resto da vida:

– parafusadeiras/furadeiras a bateria > não dá para viver mais sem elas, são um trampolim para tudo. O problema é sempre a bateria, evite coisa duvidosa, tente ir direto nas que possuem bateria de lithium, valem cada centavo. E não esqueça de adquirir ponteiras adequadas.

– furadeira > é essencial, e se você não precisar furar coisas duras e paredes pode investir numa “chinesinha” para começar, essas que as grandes redes vendem com marcas próprias, e depois deixá-la de backup e para possíveis empréstimos. Se tiver espaço e um pouco mais de recurso invista numa furadeira de bancada, tem modelos bem acessíveis, é muito segura e é muito útil.

– lixadeiras vibratórias > para pequenos trabalhos pode-se utilizar as econômicas tipo hobby, vai encontrar de boas marcas.

– serra tico-tico > muito útil. Há muitos modelos econômicos com marcas conhecidas. Se não for utilizar para grandes trabalhos pode adquirir uma hobby. O importante é adquirir também boas serras, sobretudo para trabalhos delicados.

– cola quente > sensacional, dá para colar de tudo gastando pouco.

– soldador > vai precisar dele cedo ou tarde. Sugiro um soldador elétrico tipo lápis de uns 50w, também o suporte dele (vai ajudar você não queimar tudo e a mão também), pasta para soldar, um bom rolo de fio de solda (prefiro a marca BEST) e um sugador de solda.

– esmeril de bancada > vai usar para tudo, até para lixar a unha e apontar o lápis. Aqueles pequenos quebram um grande galho e ocupam pouco espaço.

– multímetro > não tem como não ter. Essencial para testar tudo, ver se tem corrente, fio quebrado, entre outros. Há marcas bem acessíveis.

– luminária > não se engane, iluminação é tudo.

– aspirador de pó > garante o final feliz.

Com o tempo irá descobrir outras ferramentas de acordo com sua necessidade, como tupias, plainas, serra circular, serra de fita, tico-tico de bancada, lixadeiras, tornos, compressores e pistolas de ar, etc.

Ferramenta #5

Insumos – procure ter os básicos e vá adquirindo conforme for aumentando a necessidade: colas (PVA, Bonder, Araldite, contato, silicone), óleo, tintas, fita isolante, fita crepe, lixas, pincéis, solventes, pregos, parafusos, presilhas plásticas, rebites, “café” (isso é bem essencial).

Uma curiosidade é que eu costumo usar muito “esmalte de unha” para dar desde um retoque no acabamento até isolar um contato ou colar um detalhe. Também adoro uma coisa chamada “veda calha”, uma espécie de silicone com base de solvente, seca rapidamente e vira um plástico, cola e preenche que é uma maravilha.

Ferramenta #6

Sucatas – é sempre a melhor fonte de matéria prima, é só olhar em volta: madeira, fios, circuitos velhos, plásticos, arames, chapas, tubos.

Ferramenta #7

Paramentação – tenha ciência que mesmo em coisas simples há um certo risco, então cuide de possuir equipamentos de segurança (EPI) como protetores auriculares, óculos de segurança, máscara, luvas, além de suportes, grampos e presilhas (sargentos) para garantir que tudo esteja estável para sua operação.

Ferramenta #8

Fazer suas próprias ferramentas – com o que listamos acima poderás desenvolver várias outras ferramentas e acessórios para você utilizar em sua oficina.


O melhor de tudo é que a maioria disso tem longa durabilidade, ou seja, o investimento é cumulativo.

Bom, está com tudo em mãos? Ótimo, vou ajudar vocês a utilizar tudo isso. Também se não estiver não se preocupe, podes ir montando seu espaço por demanda. Só não roube os talheres da cozinha para usar de ferramentas, erro básico de principiante, adquira seus próprios talheres.

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Tiago Valente

Tiago Valente

Conhecido como “o alquimista”, além de tecladista, é especialista em conserto, restauração e luthieria de instrumentos de teclas e afins. É responsável pela seção “Oficina” do tecladistas.com.br. Comentários